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Devaneios do Caveira

 

 

De volta ao vazio

 

Não somos completos. É um engano perigoso acreditar que se chegou ao fim da estrada e que nada de novo pode ser dito, aprendido ou vivido. Temos um vazio, desde sempre. Vazio incompreensível à razão, mas sentido na alma. Isto incomoda, inquieta. Deixa-nos deixa tristes e desesperados. E no desespero por preencher esta lacuna melancólica, entregamo-nos ao ordinário da vida usual repassada a gerações. Emprego, status profissional, casamento, filhos. E isto é feito sem um toque sequer de questionamento, ainda que uma dúvida permaneça escondida num recôndito escuro da alma.

 

Assim o vazio é preenchido, sem que se perceba que algo se perdeu.

 

O que se perde quando se segue pela estrada comum da vida ordinária que foi imposta a nossos pais e que eles, sem perceber, a nós desejam? Perde-se a inquietude adolescente de querer mudar, anarquizar e se refazer constantemente. Perde-se a capacidade de ir além daquilo que a nós foi planejado, antes mesmo de nascermos. Perde-se a potência de um “eu” genuíno e inovador. Perde-se a si, e reencontrar-se não é fácil.

 

A alternativa ao comum e ao ordinário não é simples. Reconhecer o amor essencial. Fazer do relacionamento um eterno namoro em que filhos são desnecessários. Compreender que o status profissional é menos importante do que abraçar quem lhe é importante. Entender que este abraço não deve ser esquecido em meio ao caos das horas laborais que a meritocracia impõe. Reservar espaços à solidão e relegar algumas regras de convívio social ao estritamente necessário. Ir contra o estabelecido, ainda que de forma silenciosa e sem alarde.

Esta outra via é recheada de opções à vida ordinária, porém traz mais reprovações do que sorrisos sinceros. Toda alternativa não usual conduz à estrada da insegurança e da dor. Deixar a incerteza acompanhar a jornada faz o pavor do desconhecido aflorar em forma de sofrimento.

 

Mas, o desconhecido é bom e a insegurança importante.

 

Pensar que tudo é sabido nos torna somente seres estagnados de alma inóspita. Alardear certeza diante do misterioso é mentir sobre o medo que nos é inerente e nos faz humanos. No caminho alternativo, que poucos ousam, o vazio é reencontrado. E o vazio é necessário.

 

Constantemente tentamos preenche-lo. Amigos, amores, diversões. Porém, o vazio existe para ser o que nos impulsiona. Cada amigo, amor ou diversão que temporariamente completou aquele cantinho desocupado daquela alma perdida, conteve a beleza daquela essência esquecida por quem se perdeu no cotidiano trivial e recusou o extraordinário.

 

Quando uma diversão acaba, um amigo vai ou um amor desencanta, o vazio é novamente sentido. Não por que ele voltou, mas por que sempre esteve lá. Quando a diversão se estende, o amigo permanece e o amor prossegue, tem-se a falsa sensação que não há o vazio.

 

Podemos nos permitir não sentir o vazio e nos satisfazer com a graça da jornada. Todavia, quando o sentimos não é culpa daquele que foi ou ficou. O vazio simplesmente existe, independentemente de nós, de alguém ou de algo. Está sempre ali.

 

O vazio é o nosso desejo de não ser monótono, de não ser a música pobre de compasso simplório, o texto de palavras insignificantes. É nossa vontade de movimento, acompanhada do medo do desconhecido.

 

Entender que o vazio faz parte do que somos e que seu preenchimento é transitório é o início da fuga da vida ordinária. Compreender que cada pessoa ou situação que esteve naquele vazio nos ajudou a seguir por um caminho que nos torna melhor é escolher constantemente ir ao incógnito, tendo coragem de ter medo e de se arriscar ao extraordinário.

 

Assimilar o vazio é entender que não há fim. Há somente transição.

E por isso ao vazio voltamos... e voltamos.

 

Outubro de 2015 (revisitado em março de 2017)

 

Caveira

(Rodrigo Cavalheiro Rodrigues)